José Carlos de Figueiredo Ferraz

O engenheiro José Carlos de Figueiredo Ferraz (1918-1994) fundou, em 1941 o escritório de projetos de estruturas, que deu origem à atual Empresa, que vem atuando nas áreas de consultoria, projeto e gerenciamento, nos setores de transportes, energia, saneamento, indústrias e meio ambiente entre outros.

Desenvolvendo projetos que se destacam pela singularidade e expressão, de projeção internacional, norteou-se sempre por altos padrões éticos.

Na manhã de sábado, 25 de junho de 1994, um típico dia gelado e chuvoso de inverno paulistano, um senhor de aparência elegante, cuja idade poderia se situar em algum ponto dos sessenta anos (na verdade, tinha 75), sentiu-se mal às portas da Estação Brigadeiro do Metrô de São Paulo, na Avenida Paulista.

Não se sabe exatamente os caminhos que levaram o engenheiro, professor e ex-prefeito de São Paulo, José Carlos de Figueiredo Ferraz, até aquela estação, naquele dia e momento.

Foi pelas mãos da equipe de segurança do Metrô que deu entrada a seguir no Hospital Municipal da Rua Vergueiro, bairro da Liberdade, onde veio a falecer às 12h50m daquele mesmo dia, em conseqüência de um enfarte.

Ao redor das 9 horas daquele dia, chegara aos escritórios da Figueiredo Ferraz Consultoria e Engenharia de Projetos, na Vila Mariana, conduzindo um fusca areia que costumava utilizar nos fins de semana, quando dispensava o motorista. Por volta das 11 horas, saiu rumo ao Metrô Vila Mariana, deixando o carro na vaga de sempre.

No rastro de tristeza que se seguiu ao seu desaparecimento, por bastante tempo ali permaneceu aquele fusca, pontuando o vazio imenso deixado por sua ausência naquela empresa que fundara 53 anos antes.

Inúmeras vezes, o trajeto de sua casa, próxima ao Parque do Ibirapuera, até a empresa, na Rua Conde de Irajá (seu endereço desde 1982), era realizado a pé. No outro carro, um confortável Galaxie, iam zelosamente conduzidos por seu motorista, sua pasta, às vezes o paletó, a gravata e, infalivelmente, ... os sapatos.

Jamais se veria o professor Ferraz inadequadamente trajado em qualquer de seus compromissos. Mas, nesses anos de caminhadas diárias, quantas vezes não foi surpreendido entrando em sua casa ou na empresa numa inusitada combinação de termo e tênis!

Nas ruas, era com igual informalidade que atendia aos cumprimentos e desfrutava do prazer de conversar com as pessoas que o reconheciam

Ao ser acudido por populares e funcionários da Estação Brigadeiro, as compras que trazia falavam de uma passagem pela rua Augusta e pela Livraria Cultura. Seu amigo, sócio e presidente da Figueiredo Ferraz Consultoria, João Del Nero, acha que pode ter ido da Vila Mariana ao centro da cidade de Metrô e retornado de lá a pé até a avenida Paulista, para fazer a caminhada do dia, chegando à esquina da rua Augusta e dali caminhando ainda até a Estação Brigadeiro.

Seja como for, quantas de suas obras terá ele visto ou não pela última vez, naquele trajeto de alguns quarteirões? Os edifícios Eluma e Casper Líbero, o Banco Real, os belos pilares do Museu de Arte de São Paulo (MASP) com seu famoso vão livre - concebido na prancheta da arquiteta Lina Bo Bardi, transformado em realidade física pela competência da equipe do escritório F. Ferraz.

Que sonhos para São Paulo não poderia ter relembrado nesta caminhada? Sonhos como seu plano de construção de uma via expressa subterrânea, entre a superfície da avenida Paulista e a atual linha do Metrô, percorrendo toda a sua extensão.

E que memórias de outros sábados distantes, em que esquadrinhava a pé as obras do primeiro trecho em construção do Metrô (Jabaquara - Liberdade)?

(condensação livre de um texto de Silvana Assunção)
(texto1.doc) RPG - 26/06/1997 (rev. 0)

"Não posso deixar de ser professor, esta é a minha natureza" dizia. Ao completar 70 anos, em 1988, foi aposentado compulsoriamente pela Escola Politécnica (Poli) da Universidade de São Paulo, depois de uma carreira de mais de 40 anos como professor assistente, professor titular e catedrático de disciplinas do campo da Engenharia Estrutural. Mesmo assim, seguiu ministrando até o fim da vida, três cursos dentro do programa de pós-graduação em Engenharia Urbana: Evolução Urbana, Metropolização e Economia Urbana.

E que mestre era! Intelectual de formação científica e humanística, leitor em inglês, francês, alemão, espanhol e russo, estudioso de grego e de filosofia, doutor em física e matemática. Dono de uma biblioteca com milhares de livros, conseguia fazer da Engenharia uma ciência humana e das necessidades sociais a razão maior de toda a tecnologia.

Era num ambiente de impressionante concentração e silêncio, segundo testemunhas de suas aulas, que trazia para os alunos a amplitude de uma visão multidisciplinar, aliada à vasta experiência de secretário, prefeito, diretor da Companhia Siderúrgica Paulista - COSIPA, membro do grupo executivo do Metropolitano e tantos outros cargos públicos.

A abrangência dos temas de que tratou em anos de assídua atividade como intelectual e escritor - praticamente não passava uma semana sem revisar antigos textos ou produzir um novo trabalho - pode ser apreciada no livro "Urbs Nostra" (Edusp - Editora da Universidade de São Paulo e Editora Pini), lançado em 1991 quando completou cinquenta anos de carreira como engenheiro. São cerca de cinquenta artigos, discursos, ensaios e palestras, percorrendo desde aspectos técnicos de assuntos como saneamento, transporte, tecnologia e energia, até questões mais amplas como o advento do computador, a poluição, a megalópole, as perspectivas urbanas da América Latina, o papel do engenheiro, o papel do político e a nova Constituição.

Igualmente tem lugar em sua obra o sentimento do cronista em textos nostálgicos como "São Paulo - Fragmentos de Memórias", "Medita São Paulo", "O Retirante" e "Esse que Um Dia Foi Rio". Veja-se neste trecho de "Medita São Paulo" a tradução poética da frase que tanto o notabilizou em sua passagem pela prefeitura, a célebre "São Paulo precisa parar":

"Tudo em ti agora é grande, teus feitos e teus problemas. Tua riqueza e tua pobreza. Tudo é massa. A notícia revela tua angústia, teu sofrer. A esperança se esvai. O temor espreita. O crime alastra. A estatística registra teus atos. O número frio e rígido é agora tua fala. A poesia não mais entoa os teus cantos de outrora. Revela a tua dor. Adquiriste a beleza geométrica e perdeste a beleza interior. Sentes o peso do crescer, parece que pressentes o teu destino dramático. Mesmo assim caminhas para ele inexoravelmente, consciente do amargo futuro que te espera por crescer, sempre crescer. Mas tu, São Paulo, ainda tens alma. Não perdeste de todo a consciência. Há tempo para que medites. Não te destruas na ânsia de te construíres. Prefiro-te grande e viva do que gigante e morta."

(condensação livre de um texto de Silvana Assunção)
(texto3.doc) RPG - 28/06/1997 (rev. 1)

A competência do engenheiro, com 50 anos de carreira e mais de 3500 projetos assinados por seu escritório, respondia por obras entranhadas não apenas no solo como no espírito de São Paulo: o prédio do Museu de Arte de São Paulo (MASP), a cúpula e as torres da Catedral da Sé, o Planetário do Parque do Ibirapuera, o Paço Municipal, o edifício Casper Líbero.

A década de trinta havia registrado os primeiros grandes feitos da tecnologia local e o concreto armado começava a provocar sua grande revolução na engenharia do país. Provavelmente, o jovem Ferraz, criado num ambiente de engenheiros - além do pai, também seu avô, Manuel Rosa Martins, tinha a mesma profissão - acompanhava cada uma dessas conquistas com entusiasmo. Já aos onze anos, em simgela composição escolar, escrevia sobre sua admiração pela engenharia.

José Carlos de Figueiredo Ferraz formou-se em 1940. Em 1935, a construção da ponte sobre o rio Peixe em Herval, Santa Catarina, impressionava o mundo com o maior vão livre de concreto armado existente até então, com sessenta metros de largura, uma realização do grande engenheiro brasileiro Emilio Baumgarten. Quando Ferraz optou pela engenharia estrutural, também já contava atrás de si com outras obras importantes da engenharia nacional, ainda nos anos trinta.

O que em 1940 o formando Ferraz pressentiu, e tornou-se seu grande estímulo, foi "a liberdade de projetar e construir, a liberdade de criar". Somente a carreira desencadeada nesse grandioso cenário, em que a evolução da tecnologia do concreto se imbricava com a da engenharia brasileira e do próprio século XX, teria preenchido sua vida.

Na década de 50, o momento do país era propício a novas técnicas e Ferraz elegeu a protensão como alvo de pesquisa. O resultado foi a idealização de um sistema patenteado, inovador para a época. O processo consiste basicamente em obter aderência ao concreto por meio da calda de injeção. O exemplo mais significativo da adoção desse processo foi o prédio do MASP - Museu de Arte de São Paulo, na avenida Paulista, obra iniciada em 1960.

Outra obra que Ferraz cita com entusiasmo foi o projeto que elaborou para a Catedral da Sé, no começo dos anos 50. A edificação estava incompleta e quase paralisada, faltando a construção da cúpula e das torres. "Os pilares eram de alvenaria de pedra e seu peso dava ensejo à ocorrência de recalques diferenciais", explica o engenheiro. A cúpula precisava ser calculada para que se evitassem fissuras futuras. Ferraz trabalhou então com uma espessura de 6 cm e vãos de 30 m, com apoio em oito pilares. "Mas fiz os cálculos como se estivesse sobre três pilares, para evitar fissuramento.

Não foi apenas em grandes obras que Ferraz atuou. Sua busca por técnicas simples levou-o a modificar a localização das caixas d'água. "Perguntei-me por que essas peças eram sempre enterradas", explica. Pesquisando, descobriu que as primeiras caixas ficavam no subsolo para impedir o acesso de animais. Pioneiramente, então, idealizou as peças elevadas. Ele se define como "grande propugnador" das barragens de concreto, como alternativa às de terra. "Dizia-se que barragens de concreto em arco eram difíceis de serem calculadas e executadas e provei que isso não era verdade." Como exemplo, cita uma barragem feita em Itapeva, no interior de São Paulo, com 50 m de altura e espessura de 4 m e 1,5 m no topo. "Uma folha de papel construída por colonos de fazenda sob minha orientação."

A busca da simplicidade quando possível, e das soluções tecnológicas adequadas ao país é enfatizada por Ferraz até hoje. Para ele, "tecnologia avançada" não é necessariamente sinônimo de soluções mirabolantes. "Tecnologia é a 'arte de fazer', mas não se confunde somente com requintes e grandes avanços." Ele faz questão de dizer que gerar tecnologia é a característica de um país avançado, em contraponto à definição às vezes presente na sociedade de que o estágio tecnológico superior depende da adoção de técnicas estrangeiras.

Nessa linha, Ferraz defende com veemência a engenharia consultiva brasileira, da qual é expoente. Ainda aqui a multidisciplinaridade que adotou em seu escritório foi fator fundamental para realizar as obras de consultoria. No Brasil, conforme sua opinião, a engenharia consultiva ainda é uma desconhecida. "Há casos" em que é destacada, mas não para ser exaltada e sim condenada e reprovada quando dos insucessos, dos quais é sempre tachada como responsável." Para ele, o êxito, quando alcançado, pertence ao cliente, na visão geral. Como uma atividade pouco reconhecida, a engenharia consultiva, para Ferraz, é também prejudicada por ocasião dos pagamentos a que faz jus pelos serviços prestados. Não tendo poder de "lobby", diz ele, fica postergada propositalmente, "purgando uma depressão que destrói sua estrutura, arrefece seus ânimos e decompõe seus quadros."

São inúmeras as obras de Ferraz no setor de transportes, abrangendo desde ferrovias e rodovias até metrô e hidrovia. Na sua tese de que o engenheiro deve identificar-se com as obras que executa, as ferrovias, em especial, lhe deram muito prazer. É até hoje defensor desse meio de transporte e não entende como pode estar tão desprestigiado no Brasil. "É ainda a solução natural para cargas pesadas, em que não há urgência de entrega." Um dos exemplos que cita para ilustrar a forma irracional com que a ferrovia é tratada é a estrada de ferro São Paulo - Rio, "claramente ociosa quando em paralelo corre a via Dutra, sempre congestionada." Ferraz viveu o boom rodoviário, mas nem por isso deixa de criticar o traçado das estradas que adentram São Paulo, causando sérios estragos. Para ele, as obras do anel viário - que circundará a capital paulista - são fundamentais para evitar o que chama de "agressão" à cidade.

Décadas de competência e talento técnico uniram o nome de Ferraz, sua empresa, seus sócios, funcionários, estagiários e todos os que com ele trabalharam, a grandes obras como o trecho da Serra da Rodovia dos Imigrantes (SP) - exemplo de construção majestosa, erguida quase toda sobre pilares para interferir o menos possível com a paisagem e a natureza; a Ferrovia do Aço (no trecho entre Belo Horizonte e Volta Redonda); a Ponte Internacional Tancredo Neves - Ligando o Brasil à Argentina; o sistema de saneamento e abastecimento do Alto Tietê (SP); o planejamento e edificação do Núcleo Urbano de Carajás (PA); a Siderúrgica de Tubarão (ES) e tantas outras.

(condensação livre de um texto de Silvana Assunção e material da revista "Construção" de dezembro de 1991)
(texto2.doc) RPG - 26/06/1997 (rev. 0)

Quando assumiu a prefeitura de São Paulo, em 1971, seu nome era praticamente uma unanimidade mesmo para os mais rigorosos opositores do regime militar, que abolira as eleições diretas para as prefeituras. Suas passagens anteriores pelas secretarias municipais de Obras (1957) e de Transportes (1968) haviam deixado uma marca de integridade e absoluta coerência na vida pública (demitiu-se da secretaria dos Transportes por não ter a Assembléia aprovado seu plano de unificação das ferrovias do Estado), trilhada com independência de todos os partidos políticos.

Mas o intelectual, o amante das artes e da literatura, o crítico consciente da tragédia humana, contida nesse mesmo progresso, o administrador voltado para a vida pública nunca se deixou seduzir apenas pela grandiosidade das obras de engenharia, esquecendo-se de que ela é uma técnica a serviço da sociedade. Foi essa lucidez que o levou a proclamar que São Paulo "precisava parar de crescer", repetida pela imprensa de todo o país pelo choque que causava naquele momento inicial do chamado "milagre econômico" brasileiro, quando os paulistanos se inebriavam de sua potência industrial e o slogan da época era o anúncio orgulhoso - "São Paulo, a cidade que mais cresce no mundo".

Em seu artigo "Um prefeito sem amarras políticas", publicado no jornal O Estado de São Paulo em 28 de junho de 1994, o jornalista Julio Moreno relembra:
"Quem viveu os anos 70 deve se lembrar do destaque que tiveram notícias como a construção da linha Norte-Sul do Metrô, a nova Lei do Zoneamento e o plano de vias expressas, entre outras. São Paulo vivia uma verdadeira revolução urbana e os jornais se desdobravem para explicar tudo, da melhor maneira possível, aos seus leitores. Por trás daquela revolução havia a figura do prefeito José Carlos de Figueiredo Ferraz, certamente um dos que mais marcaram a cidade neste século."

"Figueiredo Ferraz tinha um vigor extraordinário. Campeão fundista na juventude, continuava em muito boa forma quando prefeito. Era difícil para seus assessores - e mesmo para nós, jovens jornalistas - acompanhar seus piques, quer nas inspeções de obras, quer no 'plantão mental' pela cidade que se impunha, mesmo quando deveria descansar. O vigor não era só físico, mas também intelectual e, sobretudo, de caráter."

"Em pouco mais de dois anos, ele deu à cidade - com a ajuda da Câmara - um novo Plano Diretor, a Lei do Zoneamento, a Emurb, a Prodam, o novo Código de Obras, a Lei de Áreas Verdes, a nova regulamentação de arruamentos e loteamentos, o novo Código Tributário e a lei que disciplina o ruído urbano, além de revigorar a Comgás, tocar a fundo a obra da primeira linha do metrô e conceber a nova Paulista e o plano de vias expressas. São trabalhos importantes, tanto para a administração pública quanto para a cidade em sí. A Lei do Zoneamento foi, de fato, o instrumento que ordenou a cidade deste final de século, impondo limites para os gabaritos dos prédios, incentivando áreas livres em torno das construções e dividindo melhor as atividades urbanas. Figueiredo Ferraz se preocupava em restaurar um pouco da qualidade de vida que ele encontrou em São Paulo quando, menino do Interior, veio viver aqui."

"Aqui se formou engenheiro, aqui projetou várias obras de destaque da engenharia nacional. Foi secretário de Estado. E foi prefeito. Sem amarras políticas, tornou-se um prefeito famoso por brigar contra a poluição da fábrica de cimento Perus, do poderoso J. J. Abdalla; enfrentou com coerência a antiga Light, numa polêmica sobre sua responsabilidade nas enchentes da cidade; e exigiu, de cara limpa, do governo federal o retorno para São Paulo de maior parte do dinheiro gasto em impostos pelos habitantes da cidade"

"Prefeito de personalidade, incomodou a imagem de um governador fraco que o demitiu. Nunca mais voltou à vida pública, mas continuou defendendo, como poucos, os interesses de São Paulo e de seus habitantes. Com a sempre repetida tese 'São Paulo precisa parar', foi ao Congresso Nacional, participou de simpósios, fez palestras no interior, para mostrar o padoxo urbano fruto do violento processo de desenvolvimento desequilibrado do País. Um tema técnico, que ele sabia tratar com o racionalismo de um engenheiro, mas também com o humanismo de um poeta, como se constata por esse seu depoimento de 1973 sobre São Paulo: 'Adquiriste a beleza geométrica e perdeste a beleza interior. Sentes o peso do crescer. Parece que pressentes o teu destino dramático. Mesmo assim caminhas para ele inexoravelmente, consciente do amargo futuro que te espera por crescer, sempre crescer. Mas tu, São Paulo, ainda tens alma. Não perdeste de todo a consciência. Há tempo para que medites. Não te destruas na ânsia de te construires. Prefiro-te grande e viva do que gigante e morta'."

"Se os brutos também choram, São Paulo está de lágrimas agora."

(condensação livre de um texto de Silvana Assunção e artigo de Júlio Moreno)

(texto4.doc) RPG - 28/07/1997 (rev. 1)

O vigor físico que Figueiredo Ferraz ainda demonstrava depois dos setenta anos fazia jus à juventude de campeão universitário, brasileiro e sul-americano dos 100 metros rasos, com títulos conquistados em diversas modalidades de corrida. O "Diário da Noite" de 27 de fevereiro de 1939, uma segunda-feira, publicava em sua primeira página:

IGUALADO O RECORDE BRASILEIRO DOS 100 METROS RASOS

Para recomeçar as atividades esportivas após o carnaval, tivemos hontem apenas duas competições em S. Paulo. Um prelio amistoso de futebol e o treino dos atletas que estão se preparando para o Campeonato Sul Americano. O jogo de futebol teve um transcorrer regular. O estado do campo, depois da chuva, não permitiu uma exibição das melhores. A competição de athletismo esteve optima, tendo JOSÉ C. FERRAZ, conseguido marcar um tempo estupendo para os 100 metros rasos. Percorreu a distância em 10"5, igualando o recorde brasileiro.

"Minha carreira se iniciou praticamente por acaso, pois eu praticava remo devido à proximidade da Escola (àquela época, a Escola Politécnica da USP situava-se na Av. Tiradentes e, portanto, do rio Tietê, onde se praticavam várias modalidades de esportes aquáticos), e da facilidade, pois nós remávamos de manhã cedo antes da aula. Um dia tive curiosidade de assistir ao treinamento de um grupo de amigos que se preparavam para disputar uma competição universitária. Assim me interessei pelo atletismo, apesar de ter sido desencorajado pelos amigos com relação à rapidez de obtenção de resultados. A despeito disso, nesse mesmo dia, houve um 'tiro' de 100 metros e eu ganhei de todos eles apesar de estar correndo de tênis e todos os outros com sapatos de prego. Menos de um ano depois eu já era vice-campeão sul-americano dos 100 m. rasos com menos de 18 anos." (trechos de entrevista concedida por Ferraz em 1979 a um jornal acadêmico)

"Eu só competi de 1936 a 1940, durante os 5 anos que cursei a Escola e 1941 quando disputei o sul-americano de Montevidéo, sendo novamente vice-campeão nos 100 m. rasos, mais campeão no revezamento 4x100 m. Além dos sul-americanos, participei de várias competições nacionais e F.U.P.E. A minha melhor marca foi alcançada em condições bem piores que as atuais, pois a pista era de carvão e além do mais só treinávamos duas vezes por semana."(trechos de entrevista concedida por Ferraz em 1979 a um jornal acadêmico)

"Eu sempre considerei importante o binômio Esporte-Estudo. Creio que as duas atividades são inerentes à vida dos jovens. Desta forma, sempre havia tempo para tudo. Lembro-me de que na época do sul-americano de 1939 obtive permissão para fazer as provas da escola separadamente, tendo recebido também dispensa especial do ministro do exército para poder me ausentar do C.P.O.R." (trechos de entrevista concedida por Ferraz em 1979 a um jornal acadêmico)

RPG - 03/08/1997 (rev. 0)

Empresário

Ainda no terreno da ética, pode-se medir o rigor do comportamento do engenheiro em seu próprio território - a Figueiredo Ferraz Consultoria e Engenharia de Projeto, hoje uma empresa com mais de 500 funcionários em todo o Brasil e escritórios em outros países. José Lourenço Braga de Almeida Castanho, um dos sócios, lembra que sempre que o presidente do Conselho Administrativo e fundador da empresa precisava um carro da firma para alguma necessidade pessoal - por exemplo, buscar ou levar um de seus amigos monges do Mosteiro de São Bento - nunca pedia o veículo diretamente ao setor de transporte. "Fazia questão, primeiro, de me comunicar, solicitando a autorização", conta o diretor superintendente.

Um tal exemplo é ainda pouco diante de outros mais expressivos, como quando tranformou seu escritório numa sociedade com dois ex-alunos e estagiários: João Del Nero e o próprio Castanho. Ambos haviam começado a trabalhar com o professor em 1957. Em 61, com a renúncia do presidente Jânio Quadros, enfrentavam com ele a primeira fase difícil nos negócios, nascida da crise política e Financeira que se instaurou no pais: bancos fechados, contratos suspensos etc. Preocupado, Ferraz chamou os dois engenheiros e disse: "Não quero perdê-los. É impossível, no entanto, remunerá-los com vencimentos integrais. Proponho então que de agora em diante vocês participem como meus sócios no escritório. Tenho uma fé imensa no país e em nosso trabalho. Vamos manter o "fogo aceso" que logo inverteremos a situação". (A história e o diálogo estão no texto "Recordações: Caminhando com o Professor Ferraz", escrito em julho de 1994 por Del Nero).

Alguns anos depois, foi a vez dos outros sócios Mosze Gitelman e Aluízio Fontana Margarido. O professor Ferraz era um homem justo, tanto assim que, após sete anos de trabalho em seu escritório ele acordou com com seus dois outros sócios (Del Nero e Castanho) a ampliação da sociedade e convidou o Margarido e a mim", conta Gitelman. "Em relação à visão social, defendia seus pontos de vista com ênfase independente das pressões que sofria. Às vezes, punha em risco a continuidade dos trabalhos da empresa em alguns órgãos responsáveis por políticas que combatia. Não dava trégua, não cedia, se estivesse convencido de que seu ponto de vista era o correto. Transmitiu-nos uma visão ética muito grande".

Não foi apenas o homem ético, voltado para o serviço à cidade e à cultura, que aceitou o desafo da construção do Masp. Foi também o jovem entusiasmado com as possibilidades abertas à engenharia brasileira de grandes estruturas nos anos 30, e que, às escondidas do pai, que teimava em vê-lo médico dava "piruetas" nos horários para seguir o pré-universitário da carreira desejada, ao mesmo tempo em que cursava o preparatório da Medicina.

Contava o próprio Figueiredo Ferraz que, certo dia, indo ao Colégio São Bento para pagar a mensalidade do pré-médico do filho, sua mãe, Julieta Martins de Figueiredo Ferraz, foi surpreendida com duas parcelas. A segunda, a escola cobrava pela frequência do aluno ao curso da engenharia. Foi assim que seu pai finalmente tomou conhecimento e comprendeu sua atitude, liberando-o a seguir para fazer o que quizesse.

Conhecedor desse capítulo da juventude de Figueiredo Ferraz, o engenheiro João Del Nero assim explica a aparentemente estranha interdição à vocação do filho manifesta pelo pai, ele próprio engenheiro e dos bons - Odhon Carlos de Figueiredo Ferraz foi um dos pioneiros que ajudou a construir a malha ferroviária paulista: "O dr. Odhon, engenheiro brilhante (....) talvez se sentisse tolhido no exercício da profissão. Faltava ao país respaldo industrial para a cvnstrução de grandes obras. As grandes estruturas de aço eram importadas. A engenharia local pouco se desenvolvia assistindo estas construções", escreve na saudação que fez a Ferraz em 1988, dentro das homenagens prestadas por ex-alnnos, quando da aposentadoria deste na Universidade de São Paulo.

RPG - 04/08/1997 (rev. 0)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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